sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

As vezes é preciso pensar sobre tudo um pouco…

 
Dois bicudosbicudos

 

“Pra eles, prelúdios de amor, era não dizer o que sentia, sim fazer sexo em posições esdrúxulas com chupadas pirotécnicas

 

Ela me azucrinava por um namorado. Apresentei ele, um forte candidato ao celibato. De saída me vi o patrocinador de uma superprodução amorosa em quatro-dê. Depois, quase virei o serial killer da trama, ao cogitar seriamente quadricular ambos feito pizza paulistana. Ouça essa história sem pé, nem cabeça, nem coração.

Foi assim. Ela passava suas sextas-feiras com a canela peluda. O Homem-Lata tinha mais calafrios que ele com aquela puta, já item de cesta básica. Ela o conheceu, gostou, e me perguntou sobre quanto tempo deveria esperar para dar. Um mês ou sete encontros. Ele curtiu a moça e quis saber quando ligar depois do primeiro beijo. No quarto dia subsequente.

Ele vai gostar de mim? Claro que vai, você tem uns lábios bonitos, uma cor que ninguém mais tem, manda bem na cozinha, tem um senso de humor impecável.Foram os caras que você deixou dormir aqui que te fizeram esquecer o quanto você é bonita.

Cara, e se ela me achar gordo? Ué, para de se masturbar e vai correr um pouco. E, meu, teu charme é imbatível naquele sobretudo.

Se viram, se viram, se viram. Transaram. Mas para eles, amor, ou prelúdios de amor, era não dizer o que sentia, sim fazer sexo em posições esdrúxulas com chupadas pirotécnicas, nunca partilhar uma receita de maionese base leite e alho, só beijar após o cepacol. Ficou puto que ela comeu seu iogurtinho sem pedir. Ficou fula com a mania dele postar suas pantufas na saída de banho. Ela é invasiva. Ele é grudento. Mas valeu aí, por ter nos apresentado. A fila anda. O caralho. Pra putaqueopariu vocês. Bobão. Ficou enfezadinho que ela comeu tua sobremesa de gordo solitário, nenê? Anta. Deu piti porque ele quis evitar suas infecções urinárias, docinho? E vocês tão achando que amar é o quê, dupla de dois panacas? Ficar falando obscenidades mais alto que a música, oferecer drinque, aceitar drinque e acabar numa enfadonha transa de ladinho fedendo à cigarro, hálito de tequila, ela quase dormindo, ele de pau meia-bomba?

Fica mais distante o sonho de uma noite de inverno, estão todos se acertando, migrando pro lado quente da vida. E vocês aí se automedicando, voltando sempre ao mesmo canal, cozinhando omelete, querendo alguma coisa nova e perfeita e de seus pequenos grandes sonhos na internet. Os laços não são frágeis, senhor Zygmunt Bauman, eles simplesmente nem chegam a ser construídos. O individualismo é rei, o companheirismo é bobo. Dois bicudos não se beijam.

E quem precisa de alguém quando se pode ser quem quiser com meia dúzia de cliques e um avatar bacana? Que motivo você teria pra viver por alguém? Precisa mesmo se entregar? É tão seguro detrás da trincheira. O ruim é que, quando tenho, já não quero. Tá bom, vocês quem sabem. Agora, por favor, se me chamarem pra um conselho, um desabafo, por misericórdia, depilem as pernas, tirem o perfuminho de puta do sofá.

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